sexta-feira, 4 de julho de 2008

Nossa Imprensa

Dois fatos interessantes apareceram nos jornais esse último mês.

A multa aplicada na Revista Veja e na candidata à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, em função da concessão de uma entrevista à Revista. E a decisão do STF de suspender alguns artigos considerados autoritários da Lei de Imprensa. Os dois fatos trouxeram um sem-fim de debates na grande mídia e fez emergir algumas discussões que merecem uma atenção mais delicada da, maior afetada direta e indiretamente dos fatos, imprensa.

Quando o deputado Miro Teixeira entrou com o recurso que pede a anulação total e irrevogável da Lei, ou quando a Liberdade de imprensa sofre algum tipo de ameaça, um labirinto complexo se debruça em nossa frente. De um lado, eliminamos de vez respingos ditatoriais ainda presentes, e muito presentes, em nossa sociedade. De outro, deixamos o caminho livre para uma mídia cada dia mais irresponsável e distante de alguns preceitos básicos que regem a profissão.

O embate que envolve mídia, grandes empresas e sociedade está longe de um desfecho pleno. Desde a metade do século XX e a consequente hegemonia dos meios de comunicação de massa, uma nova forma de ditadura acabou por se estabelecer. É simples, cada vez mais meios em menos mãos, um processo que endoça o receituário neoliberal difundido nas últimas décadas.

O Brasil não fugiu a regra. O regime ditatorial e os grandes conglomerados cresceram de maneira mútua. Os que hoje criticam ontem apoiavam. O caso da Ministra Dilma e do senador Agripino Maia foi de um didatismo político exemplar. Outro fato exemplificador é o dado que segue: "Cinqüenta e cinco deputados federais (10,7 por cento da casa) detêm concessões de radiodifusão. O Rio Grande do Norte encabeça o rol de maiores detentores: metade da sua bancada."(paulohenriqueamorim.com.br)

Essa configuração de aparelhamento ideológico e comercial da mídia cresceu com a epopéia do mundo neoliberal "sem fronteiras" da década de 90. É bom ressaltar que o tom exacerbado da disputa tomou conta dos dois lados, esquerda e direita (se é que ainda existem essas denominações hoje!!). Temos todos os aspectos da mídia neocon em veículos esquerdistas também, obviamente (e falo isso não por ideologismo), que em menor proporção. A patrulha capitaneada por Veja, Folha entre outros, tem adversários de peso, que algumas vezes, exageram cegamente numa defesa sem debates plurais, vide Carta Maior e PHA.

É dentro desse combate quase pessoal que a Lei de imprensa ainda cabe. Como? Perguntam os paladinos da liberdade de expressão. Respondo, não podemos dar mais campo para os assassinatos de reputações que vemos hoje. As matérias saíram dos debates para os embates, cada vez menos subjetivas e mais objetivas, mais pessoais, sem nenhuma preoucupação com a sonoridade que grandes temas ganham no âmbito nacional.

“Imprensa e democracia, na vigente ordem constitucional brasileira, são irmãs siamesas. Em nosso país, a liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade, porquanto o que quer que seja pode ser dito por quem quer que seja”, afirmou o Ministro Ayres Brito quando defendeu as mudanças na Lei, em março. A ditadura no Brasil virou álibi para tudo e todos. As pessoas se cobrem numa cortina de defesa, onde baseiam todas as suas merdas nas bases democtáricas construídas no período pós regime militar. A grande mídia faz isso como poucos. Ela, que sempre apoiou o regime, agora veste a camisa da liberdade de expressão (no sentido banalizado do tema), e usa essa utopia do nosso regime democrático para construir sua fortaleza hegemônica alicerçada com medo, ódio e irresponsabilidade.

A complexidade do tema não traduz o tratamento que lhe é dado. No entanto, isso não é novidade pra ninguém, é mais lucrativo botar o Ronaldo e seus travecos na capa. Só acho que não podemos nos deixar levar pelo "espírito democrático" que os jornalões espalham por aí, pura balela. Precisamos sim que jornalistas (?) que praticam calúnias, jogos políticos e empresariais e demais assassinatos de reputações sejam punidos normalmente, sem a cobertura de uma falsa ideologia, que está mais perdida que nossa oposição.


Em tempo:

O resgate de Ingrid Betancourt, a prisioneira mais "famosa" das FARC, repercutiu de maneira interessante na imprensa.

Merval Pereira disse, na CBN, que tudo se deve ao conjunto de esforços da política de Uribe em conjunto com EUA e Israel, que juntos, estariam na luta contra o terrorismo. Obviamente, não deixou de dar uma alfinetada em Chavez e sua trupe, dizendo que o presidente Venezuelano pode ter financiado a guerrilha.

O engraçado é que aqui eles apoiam a política ultra repressiva e violenta de Uribe na Colômbia, no entanto, criticam quando Sérgio Cabral manda o BOPE subir Favela, falam dos direitos humanos. Há uma "pequena" contradição política ai, não?

É complicado fazer especulações de longe, uns já falam que Uribe pagou as FARC pelo resgate, outros batem palma. Uma situação bem complexa, que não se resolve nem com o "pacifismo" de Chávez perante a Guerrilha, nem com a intranigência EUA/Colômbia de Uribe.


Em tempo 2:

Vale à pena uma passada no Blog no Luis Nassif (http://luis.nassif.googlepages.com/home) para conferir a série de matérias sobre a Veja, principalmente a última, sobre o Governador Ivo Cassol. Passem o olho por lá.....

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